sábado, 18 de abril de 2009

Blogagem Coletiva - Quem foi seu Monteiro Lobato?

Memórias de uma leitora

Prefácio
Falar sobre o 18 de Abril, Dia Nacional do Livro Infantil e de seu representante maior Monteiro Lobato não é tarefa fácil, todavia, muito gratificante porque o prazer de brincar com as palavras e recontar coisas passadas não se mensura, um misto da literatura na vida e da vida na literatura. Incomparável, sua obra infantil deixou marcas em minha geração, deixará também para as subsequentes posto que é imortal.

Capítulo 1 – em casa: o pontapé inicial da literatura
Meu pai, que fora criado com o mínimo de estudo, na base da enxada, em nossa infância, contava a mim, ao meu irmão e minha irmã, basicamente duas histórias: João e Maria, em que a parte mais interessante era a tensão de saber se a bruxa descobriria a mentira das crianças na tentativa de se livrarem dela e, Ali Babá e os 40 ladrões, desta que ficou marcada a célebre frase “abre-te Sésamo!”, funcionava como mágica num mundo distante e diferente do nosso cotidiano. Coitado de meu pai! O seu repertório era composto apenas por estas e sempre pedíamos para que ele as repetisse, mil vezes que fosse!
Capítulo 2 – o primário: caminho das letras
Aos sete anos e meio iniciei a primeira série. Aprendi o alfabeto no velho método da abelhinha, quem se lembra? Em cada letra uma história, um som, uma grafia. As dificuldades eram substituídas por muitas repetições com a introdução de fichas no alfabeto silábico.
Já no ano seguinte, descobri a escrita de outra forma: produzindo redações: temas livres ou direcionados, não importava, eu queria muito inventar situações e pessoas, tanto que a professora chegou a pedir certa vez que eu preenchesse um pouco menos que cinco ou seis páginas dos pequenos cadernos de brochura, afinal, aquilo não era para ser um livro!
Na terceira série fui premiada com um coelhinho “Quick”, por ter escrito a melhor história numa competição entre os colegas da turma. Esse “troféu” dormiu, passeou e ficou ao meu lado por muito tempo.
Por essa época estava a frequentar a biblioteca, por ser um colégio novo não tinha muitos livros, contudo, dentre os que li, apenas uma coleção, em especial, passou a fazer parte das minhas várias idas e vindas naquele lugar:
Anita, escritos por Marcel Marlier e Gilbert Delahaye. Como toda criança, buscava algo que chamasse a atenção pelos sentidos: os olhos viram as capas duras e as lindas ilustrações. O cheiro do livro levava-me a viajar junto com a protagonista nas diferentes histórias. Folheá-los era a certeza de encontrar um pouco mais de aventura, podia, inclusive, ouvir as vozes, os sons...
Posso dizer que foi o marco zero de minhas leituras e elegê-la como alusiva ao meu Monteiro Lobato remonta a estas memórias, concomitantemente, Lobato apareceu-me de outro modo: pela televisão através dos muitos episódios exibidos no programa Sítio do Pica-pau Amarelo. Era um vício assisti-los todas as tardes, certa vez cheguei a sonhar com o Minotauro tentando me encurralar num labirinto, foi muito pior que sonhar com a Cuca! Meu personagem favorito era o Visconde de Sabugosa, tão culto e cheio de explicações inteligentes, fazia um ótimo par com a Emília nas suas intermináveis filosofias e ideias.
Na 4ª série tomei “ares de professorinha”, pois a “tia” cultivava o hábito de seus alunos serem auxiliares em classe: escrever na lousa, confeccionar cartazes, ajudar os colegas com dificuldades, etc. Coloquei na cabeça que seria professora no futuro.
Capítulo 3 – o ginasial: tomada de decisões
Da 5ª a 8ª séries a coleção Vaga-Lume, que acredito ter sido uma coqueluche entre professores e alunos da época, foi outra que apreciei muito, tendo lido vários, dentre eles alguns como: O Mistério do Cinco Estrelas; Sozinha no Mundo; A Ilha Perdida; Açúcar Amargo; Aventuras de Xisto; Deus me Livre!; O Caso da Borboleta Atíria; Os Barcos de Papel ; Xisto e o Pássaro Cósmico; Xisto no Espaço; etc.
Nesta fase, o estudo da Língua Portuguesa, além de Inglês e Estudos Sociais eram as disciplinas que mais me agradavam.
A partir da 7ª série comecei a trabalhar. O mundo foi ficando mais complexo, difícil e, ainda assim, com muito esforço conseguia manter meus estudos de modo saudável, não tanto quanto antes que só me dedicava a eles, porém, jamais deixei de ser uma boa aluna, uma boa leitora.

Capítulo 4: 2º grau profissionalizante – o Magistério
Meu sonho de ser professora teve seu início, meio e fim, infelizmente, o fim foi FIM mesmo. Cursei-o com dificuldades por trabalhar no comércio, contudo, jamais o releguei ao segundo plano: dormia tarde, sacrificava feriados e finais de semana, férias nem as tive para cumprir meus estágios. Já formada, travei batalha com o sonho perante a realidade, esta última foi dura e deixou que o primeiro sucumbisse diante dos obstáculos. Boa teoria e vontade não bastaram para seguir adiante, eram necessárias “provas de títulos” ou salários ínfimos, ambos não me eram possíveis naquele momento. Fazia parte de uma família, almejava construir a minha também e era preciso algo concreto. O sonho acabou por ora.
Capítulo 5: curso superior – Letras: orgulho de ser
Pedagogia ainda foi uma ideia que alimentei por um tempo, logo trocada pelo curso de Letras, sugerido por meu marido (namorado ainda na época). Jamais houve arrependimento, creio que foi a melhor coisa que fiz depois do magistério. Ambos corroboraram para tornar-me alguém muito melhor. Cheguei a lecionar inglês em escola particular para crianças, provei que era capaz, fui feliz, entretanto, a vida faz das suas, precisei tomar novo rumo, priorizar pessoas e coisas. Comecei a trabalhar na área da saúde com a burocracia onde continuo até hoje.

Considerações finais
Síntese é algo que tenho trabalhado ao longo da escrita e ao longo da vida, porém, bem sabemos que é quase impossível reduzir tantas histórias e tantas memórias em poucas palavras. Tentei ao máximo e peço sinceras desculpas se meu caro amigo leitor ficou enfadado, a intenção não era essa, de modo algum. A intenção maior foi suscitar algo, por mínimo e simples que fosse, de Monteiro Lobato em suas muitas e muitas criações. Minhas memórias podem não ter o glamour das aventuras de seus mais famosos personagens, porém, como foi proposto pela blogagem coletiva do
Fio de Ariadne, apoiada por Jorge Zahar Editor, apontei pessoas, fatos e autores que trilharam comigo esta trajetória no mundo da leitura. Assim se fez. Assim se faz. Era uma vez. Nada mais.
Fonte de imagens coleção Anita: site Editora Verbo
Fonte das demais imagens: Google

23 comentários:

Elaine dos Santos disse...

Adorei as considerações finais...bem coisa de professor de letras, com um pé na pesquisa. Seu texto está excelente, didático ao extremo, mas sincero, emotivo, ludico na verdadeira acepção do termo. Parabéns.

Mari Amorim disse...

parabéns! A parte mais gostosa das blogagens coletivas talvez seja isto: a interação e a abertura do coração para lembrar, deixar fluir...é bom demais!
beijos
Mari

€ster disse...

Excelente, Jô!

Vc não precisa se desculpar pelo tamanho do texto, é sempre agradável ler seus relatos, vc escreve com muita lucidez, e descreve situações com simplicidade, dá exemplos palpáveis, enfim, não há como se cansar de te ler.

Ficamos conhecendo vc um pouco mais!


beijinhos,

Cristiane Marino disse...

Ual! Valeu a pena toda ansiedade, eu dei um jeitinho de vir visitá-la não poderia deixar de prestigiá-la num evento tão importante para nós não é mesmo.
Não se preocupe com o tamanho do texto, os seus tem muita qualidade e uma surpresa a cada linha nos instigando a ler mais e querer saber como será o final.
Fiquei fascinada com sua história há coisas aí que foram surpresas até para mim, mas foi muito gostoso ler e conhecer um pouco mais de seu caso com os livros, esse lindo e verdadeiro amor que nutre desde menina!
Parabéns Jô pela sua excelente participação!
Beijosssss

digitaqueeuteleio disse...

Fantástico, Jô, adorei! Um dos mais completos que vi até o momento. Como todo professor, tudo bem explicadinho...rss e EM PARTES, para facilitar o entendimento! kkkkk É o tipo de assunto que a gente se empolga e que daria para escrever capítulos e mais capítulos.

Meus parabéns, ficou excelente!

Bj
Marcelo.

Pai dos trigemeos disse...

Jo, que trajetoria! Adorei.
Abracos,
Octavio

luzdeluma disse...

Jô, acho que vivemos na mesma época. Ou as indicações dos livros eram comuns entre as escolas. Gostei do modo que contou e principalmente a sua sinceridade. Sabe que os sonhos podem se transformar em outros sonhos, o importante nem sempre é a sua realização, mas o estímulo de certa forma nos proporcionou enriquecer a nossa vivência, o nosso dia a dia. Com objetivos, os dias se tornam mais fáceis de carregar e os obstáculos mais fáceis de superar. Boa blogagem. Beijus

Vanessa disse...

Jô, a organização do "evento" tomou um tempinho e não pude aparecer aqui antes. Muito obrigada por contribuir para o sucesso da coletiva.

Abraço

Nanda disse...

Oi linda!

Obrigada pela visita!
Volte sempre!

Eu também adorava a coleção Vagalume e tenho o Mistério do cinco estrelas até hj.

Bjão!

Vanessa disse...

Oi, já está no Fio a lista com os textos selecionados para a votação que premiará três blogueiros com um livro da Zahar. Conto com você para ajudar nesta tarefa. O link é http://tinyurl.com/dnlozq


Abraço

Escritores Unidos disse...

Olá, o blog Palavrentas e Escrevedores está muito feliz com sua participação e estamos ansiosos para ler seu texto
Qualquer dúvida entre em contato.

Beijos
Aléxia

tita coelho disse...

Oi Jô... Saudades do teu cantinho!
Menina, que bela essa blogagem, hein? Não consegui participar, pq mudei de casa e minha net demorou... Estou retornando aos poucos.
Monteiro Lobato, foi um dos primeiros autores que li, e hoje leio para meu filhote!
Beijos menina

disse...

Oi Elaine! Com um elogio desses ganhei o dia...hehe! É sincero! Gosto dos amigos que aparecem para dar sua contribuição ao blog lendo meus textos, com esse carinho todo especial, e, de quebra, vindo de uma professora atuante como você é tudo de bom.Muito obrigada mesmo! Bjins e até!

disse...

Olá Mari Amorim! Obrigada pela participação aqui no Viraletras e, de fato, gosto muito de "deixar fluir" estas memórias, consigo rastrear as boas coisas que poderiam se perder no passado e registrá-las de algum modo. Bjins e até mais!

disse...

Oi Ester! Mais uma vez você traz um comentário muito querido como esse, obrigada! Realmente, estas memórias mostram um pouquinho mais do que vivi e sou. Bjins e até!

disse...

Oie! Cris, veja você como são as pessoas, sempre tão perto e tão distantes, não é? Sempre tem algum detalhe que nos escapa, tantas conversas e longos e-mails, ainda assim, temos coisas a dizer...que bom nossos textos falarem por nós, às vezes (rs), afinal, continuaremos a nos visitar, falar no msn e trocar big e-mails (rs). Obrigada! Bjins pra ti!

disse...

Marcelo, vou usar a expressão mais feminina que posso: ai que FOFO o seu comentário!(rs), tudo de bom vindo de alguém tão cheio de ótimas ideias feito você, pode crer. Também gostei do meu post nesse "formato de livro" - tão didático!(rs), daria mesmo para estender muuuuito mais, já o coloquei desta forma porque vi que poderia se tornar enfadonho, mas acho que não aconteceu, não é? Obrigada, de coração! Bjins e até!

disse...

Olá Pai dos trigêmeos! Obrigada pela visita num dia especial como foi o da blogagem do Monteiro e, modéstia a sua dizer que minha trajetória foi lá essas coisas, claro que é especial narrá-la, afinal, é minha história de vida, contudo, "que trajetória!" posso dizer quanto a você, ser pai de três babies, ah, deve ser uma experiência que rende incalculáveis capítulos (rs), concorda? Deus abençoe família tão rica assim! Bjins e até!

disse...

Oi Luma! Bom ver seu comentário por aqui sempre. Obrigada! Realmente, acho que algumas coleções de livros foram comuns a uma certa geração, isso cria vínculos e estabelece uma proximidade e influencia, até certo ponto, no modo de experienciarmos a vida. Sobre sonhos, tens razão, eles se remodelam ao longo do tempo, não acabam de vez, embora nem sempre sejam do jeitinho que pensávamos, estão ali em algum lugar dentro de nós. Bjins e até!

disse...

Olá Vanessa! Sei que deve ser uma loucura organizar as blogagens coletivas e dar atenção aos muitos inscritos, de qualquer modo, obrigada por lembrar sempre e avisar aos que participam do que está envolvendo o evento. Bjins e até!

disse...

Olá Nanda! Por nada! Ainda quero visitá-la outras vezes, mas sabe como é esse campo da blogosfera, toma um tempo danado, vou organizando como posso e acho mais adequado, impossível "abraçar o mundo com as pernas" (hehe!). Também agradeço sua visita, volte sempre que quiser. Bjins e até!

disse...

Palavrentas e escrevedores, foi uma satisfação participar da blogagem "Encontros e desencontros", uma experiência inovadora para meu blog, diferente das demais que vi até então. Obrigada e ainda irei visitá-los outras vezes! Bjins e até!

disse...

Tita, seja bem-vinda sempre ao meu cantinho! Obrigada por aparecer nessa blogagem para comentar o post, eu também tive uns contratempos nos últimos dias, a começar pelo dia da Blogagem do Monteiro, não com a net, mas com meu pc(rs), de qualquer jeito, a gente fica "excluída do mundo virtual" sem ambos, não é?(rs)Que lindo podermos contar as histórias que nos encantavam na infância aos filhos! É maravilhoso e, melhor ainda, se for da qualidade que é a literatura de Monteiro. Bjins e até mais ver!