sexta-feira, 14 de agosto de 2009

REFLEXÃO – Poesia para crianças (e adultos)

Desde que iniciei o blog tive vontade de abranger mais esse assunto, inclusive, de postar mais poemas infantis, o que ao meu ver não parece ser algo muito aprofundado quando se estuda o Magistério e até mesmo o curso de Letras, como aconteceu no meu caso: desculpe se incorro num grave erro neste ponto, talvez os cursos referidos estejam dando mais ênfase no conteúdo atualmente, sei que muitas mudanças ocorreram ao longos desses anos em que estou ausente do meio acadêmico, não posso precisar sobre este em questão. (Em off: lá se vão 15 anos em que concluí o Magistério e outros 10, que completei este ano, o curso de Letras! Caramba, como o tempo voa!rs…Isso me deixou mais velha!kkkkk!)

O fato é que gosto e já expus poesias de Olavo Bilac aqui e acolá. Intento postar outras, tanto dele quanto de outros poetas que muito contribuíram para a Literatura. Curiosamente, em vias de me formar “sofressorinha”, em meio à loucura dos estágios, revirando os livros nas prateleiras da biblioteca, fazendo pesquisas e mais pesquisas, planejando aulas e “tentando inovar” (coisa básica que os supervisores pedem a todo principiante!), deparei-me com alguns poemas infantis, encantei-me com a simplicidade do conteúdo e com a riqueza presente nas entrelinhas ao lê-los! Intitulados “infantis”, porém, muito se podia extrair de significativo para uma jovem normalista. Diante de mim havia um mundo de possibilidades! Além disso, crianças gostam e precisam ser estimuladas sempre mais a apreciar esse tipo de texto. Mães ninam os filhos com cantigas rimadas, com a sonoridade das palavras, sabemos muitas questionáveis, outras mais lúdicas. Nos primeiros anos do jardim de infância canta-se muito, gesticula-se para expressar o que se canta e, de certo modo, a poesia está inserida no contexto da criança, mas, a partir da alfabetização isso vai diminuindo e mudando de forma, outras vezes desaparece completamente da vida do aluno.

Não é tarefa fácil aprofundar o tema, entretanto, desvincular-se da poesia por completo é deixar passar algo preciosíssimo, principalmente num mundo carente por expressar-se como o da juventude.

Dias desses, lendo uma história para meu baixinho, lá pelas tantas um dos personagens citava uns versinhos e ele riu à beça, mesmo sem compreender completamente o teor do que era lido; a sonoridade e a rima das palavras despertaram algo na criança e eu percebi o quanto poesia faz bem, mesmo para quem mal entende o que é e como se faz aquilo e pediu que eu repetisse os versos muitas e muitas vezes.

A respeito do título do post de hoje, estive a pensar como o professor em sala e, mesmo em casa com pai, mãe ou qualquer adulto que goste e leia poesia para crianças pode servir de elo entre o que há de belo e mais profundo nessa arte. A partir da poesia é possível compreender o mundo e as pessoas que nos cercam, é possível extravasar, criar e recriar, dar sentido ao que, aparentemente, não tinha nenhum antes.

E, para não deixar passar em branco, escolhi outros dois poemas da Coletânea de Poesias Infantis de Olavo Bilac. Devo dizer que é muito difícil selecionar,pois, quando me deparei com essa riqueza fiquei a imaginar como o poeta conseguiu traduzir o mundo em forma de poemas tão singelos que podem agradar às crianças e aos adultos (e quantas lições podem evocar!).

Um final de semana cheio de poesia para você! Se gostar, leia outras no Portal São Francisco, ok?

avo

O Avô

Este, que, desde a sua mocidade,

Penou, suou, sofreu, cavando a terra,

Foi robusto e valente, e, em outra idade,

Servindo à Pátria, conheceu a guerra.

Combateu, viu a morte, e foi ferido;

E, abandonando a carabina e a espada,

Veio, depois do seu dever cumprido,

Tratar das terras, e empunhar a enxada.

Hoje, a custo somente move os passos...

Tem os cabelos brancos; não tem dentes...

Porém remoça, quando tem nos braços

Os dois netos queridos e inocentes.

Conta-lhes os seus anos de alegria,

Os dias de perigos e de glórias,

As bandeiras voando, a artilharia

Retumbando, e as batalhas, e as vitórias...

E fica alegre quando vê que os netos,

Ouvindo-o, e vendo-o, e lhe invejando a sorte,

Batem palmas, extáticos, e inquietos,

Amando a Pátria sem temer a morte!

borboleta

A borboleta

Trazendo uma borboleta,

Volta Alfredo para casa.

Como é linda! é toda preta,

Com listas douradas na asa.

Tonta, nas mãos de criança,

Batendo as asas, num susto,

Quer fugir, porfia, cansa,

E treme, e respira a custo.

Contente, o menino grita:

“É a primeira que apanho,

Mamãe! vê como é bonita!

Que cores e que tamanho!

Como voava no mato!

Vou sem demora pregá-la

Por baixo do meu retrato,

Numa parede da sala.”

Mas a mamãe, com carinho,

Lhe diz: “Que mal te fazia,

Meu filho, esse animalzinho,

Que livre e alegre vivia?

Solta essa pobre coitada!

Larga-lhe as asas, Alfredo!

Vê como treme assustada...

Vê como treme de medo...

Para sem pena espetá-la

Numa parede, menino,

É necessário matá-la:

Queres ser um assassino?”

Pensa Alfredo... E, de repente,

Solta a borboleta... E ela

Abre as asas livremente,

E foge pela janela.

“Assim, meu filho! perdeste

A borboleta dourada,

Porém na estima crescente

De tua mãe adorada...

Que cada um cumpra a sorte

Das mãos de Deus recebida:

Pois só pode dar a Morte

Aquele que dá a Vida.”

Fonte das imagens: Site Colégio São Francisco

Poemas de Olavo Bilac (Coletânea de Poesias Infantis)

13 comentários:

entremares disse...

Esta é a história do Gil e da Deb, duas personagens especiais de um mundo vulgar, numa qualquer pequena aldeia do interior.

O Gil era uma garoto franzino, de cabelo cor-de-cenoura e olhos castanhos, as maçãs do rosto pintalgadas de sardas que lhe davam um ar divertido, não fosse o facto do Gil… nunca se rir. Na verdade o Gil nunca - uma série de coisas banais. O Gil não ria, o Gil não falava, não se penteava, não se vestia, não jogava à bola nem subia às árvores, como todos os rapazes da sua idade.

O Gil era simplesmente… diferente. Autista.

Algures… bem lá no fundo daqueles olhos castanhos, uma chama semi-apagada vegetava tranquilamente ao longo dos dias, semana após semana, nos seus quase nove anos de idade.

O Gil ocupava o seu tempo construindo castelos e torres, utilizando peças de madeira muito semelhantes a Lego; construía, destruía, e em seguida construía novamente.

A Deb era… extrovertida, ruidosa, com uma curiosidade insaciável. Adorava caixas fechadas, jogos de bola, o mar e a praia. Adorava chapinhar na relva molhada do jardim, correr à chuva e por vezes, até mergulhar na piscina.

Não podiam ser, portanto, mais diferentes estas duas personagens especiais de um mundo vulgar, naquela pequena aldeia perdida no interior…



- Lídia… que prazer em ver-te… Olá, Deb…

As duas irmãs abraçaram-se, como se não se vissem há muitos anos.

- E o meu Gil? O meu sobrinho preferido… como está ele?

A mãe do Gil encolheu os ombros, naquele jeito que já se habituara a fazer quando alguém da aldeia lhe perguntava pelo filho.

- O Gil… está na mesma… talvez um pouquinho mais magro, mas é do calor, sabes? Anda com pouco apetite…

- Já lhe vou dar um grande beijo… mas conta-me… o teu Manel, como anda? E as tuas aulas de ginástica? Tu não escreves, nem telefonas, não sei nada de ti, és uma irmã desnaturada…

Sentaram-se as duas na sala, entre sacos de compras, a matar saudades.

Lídia, a mais nova das duas, vivia longe, na capital, dividida entre o trabalho no banco e as suas batalhas como activista do Greenpeace.

Sempre que podia, pegava no carro e lá rumava à aldeia natal, matar saudades, reconfortar a irmã, contar anedotas, meter-se na cozinha e experimentar pratos extravagantes. Quando resultavam… hum… que delicia. Quando não resultavam… bem, ao menos sobrava assunto para as conversas de serão, frente à lareira ou nos degraus da porta de entrada.

Deb, entretanto, já desaparecera.

Algures a meio de dois goles de chá, um ruído estranho fez-se ouvir, vindo do andar de cima. Fazia lembrar uma gargalhada, ou um grito, ou uma mistura dos dois.

As duas irmãs trocaram um olhar aflito, sobressaltadas.

- O Gil… o que lhe aconteceu?

Correram sala fora, galgando as escadas em direcção ao quarto do pequeno Gil.

Teria caído? Estaria magoado?

Num ápice, alcançaram a porta do quarto. Os gritos - não havia dúvida - provinham dali, mas algo de estranho… de muito estranho mesmo, se deveria estar a passar… pois o Gil não falava, nunca falara… e muito menos gritaria.

Estacaram à porta.

No centro do quarto, rodeado de peças de madeira em completa desordem, o pequeno Gil ria perdidamente, tentando fugir desajeitadamente às lambidelas que Deb, generosamente, lhe ia distribuindo por todo o rosto.

Ele afagava-lhe o pelo macio e comprido, o focinho pontiagudo de raposa. Ela, deliciada, rebolava-se ao seu colo, mordiscava-lhe os colarinhos da camisa, puxava-lhe o cinto das calças.

E o Gil ria, ria, ria…

A Deb - esquecera-me de vos dizer - era uma cadela collie, uma daquelas pequenas "Lassie", brincalhona e ternurenta… a substituta do filho que Lídia nunca conseguira ter…

Ficaram as duas ali à porta - boquiabertas - enquanto a Deb, imperturbável, continuava a desafiar a pequena chama da vida escondida do seu novo amiguinho…

E foi assim que Gil e Deb, duas personagens especiais de um mundo vulgar, numa pequena aldeia do interior… se conheceram.

( Um óptimo fim de semana para ti )
Rolando

Cristiane Marino disse...

Que gostoso falar de poesias né? eu adoraria saber escrevê-las, fico babando nas poesias de Olavo Bilac, acho este poeta sensível e encantador.
Eu terminei meu curso há pouco tempo e infelizmenten não tive muita ênfase na literatura infantil o que senti profundamente, pois era um assunto que ansiava muito, na programação da matéria estava escrito que falaríamos de poesia infantil e tive apenas uma aula com esse assunto e bem pouco proveitosa, quando ministrava aulas ou mesmo nos atendimentos e trabalhava com poesias ficava deslumbrada o quanto a poesia fascinava as crianças e sobre a apreensão deles a respeito de algumas poesias é muito lindo.
Bjinhos

disse...

Rolando, que belo conto, hein! Obrigada por presentear o meu blog com ele, assim tão gratuitamente...
De fato, lá pelas tantas enquanto eu lia tentava desvendar a personagem Deb e ela revelou-se muito especial como deveria ser. Bjins e até!

Oi Cris!
Também sentiu essa falta em Pedagogia, não? Apesar do assunto ser vasto, poesia deveria contar mais horas nas grades dos cursos, infelizmente, parece não ser assunto de grande importância. Cursando Letras ainda tive um pouco de aprofundamento, porém, mais em Literatura Brasileira, pinceladas da Portuguesa e da Inglesa, no entanto, a Infantil fica relegada ao segundo plano (ou nem isso!). Cada professor é que acaba incluindo mais ou menos desse conteúdo conforme lhe convém, uma vez que não há esse preparo enfático nos cursos (ou não havia...ainda não sei a quantas anda Literatura Infantil nas faculdades). Bjins e até mais!

Renato Fierce disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renato Fierce disse...

Aaaaah, eu adoro poemas infantis, acho que, em algum momento de minha infância fui muito estimulado por eles, o que me fez gostar muito, mas muito mesmo de poesia hoje, de literatura na escola e de escrever meus próprios textos e até arriscar poemas rs. Lembro-me como se fosse hoje mesmo, quando eu estava na escola, nem me lembro em que série, ensino fundamental com certeza, na aula de Português fizemos redações como sempre (um dia da semana era para Redação), e tínhamos que fazer poemas, com rimas simples mesmo, e o meu poema foi um dos 3 melhores da sala, por conta disso a professora me presenteou com um livro da Cecília Meireles (Ou isto, ou aquilo)... Acredito que esse pequeno gesto tenha sido fundamental para desenvolver meu gosto pela leitura... Lembro-me até hoje o nome dessa professora, e a dedicatória que ela me fez, ainda tenho o livro comigo, é um tesouro para mim... Estava escrito: "Renato, quem ascende uma luz é o primeiro a se iluminar, com carinho..." Obrigado professora!!!

disse...

Olá Renato!
Quão felizes são as professoras que fazem e fizeram dessas atividades de redação um estímulo gratificante e muito educativas para seus alunos. Também recordo de coisas assim e até escrevi sobre isso na blogagem coletiva do Monteiro Lobato. Seria bom que mais e mais professores pudessem investir na poesia e na literatura infantil de modo dinâmico e consistente para que as crianças crescessem apreciando mais a leitura e a escrita no seu dia a dia. Bjins e até!

Elaine dos Santos disse...

Oi, Jô! Tudo bom?
A literatura infantil na Pedagogia e a literatura infanto-juvenil nas Letras continuam sendo disciplinas de segunda linha. Na Pedagogia, os poemas servem para ensinar, têm função pragmática; nas Letras, diante das "profundas" reflexões suscitadas pela literatura "adulta", os textos ditos infantis são "perfumaria". Uma pena.
Lendo o seu texto, me deparei, talvez, com a resposta para aquela eterna pergunta: porque os alunos se desinteressam pela leitura a partir da 5a série? Vc enuncia uma resposta possível: porque ela não é incentivada e, principalmente, porque não existe o prazer, a encenação, os movimentos...daí, francamente, perde a graça.

disse...

Oi Elaine! Tudo bom sim, só na ansiedade de eliminarmos essa gripe A daqui pra frente e eu tirar umas férias merecidas...rs.
Gostei muito da tua colaboração hoje, pois, alguém que está atuando é muito importante para apresentar um parâmetro do que existe hoje nessas disciplinas. Realmente senti isso que descreve quando cursei Letras, tantas profundas reflexões sobre grandes poetas e obras consagradas enquanto a Lit.Infantil ficou bem de lado...também no Magistério são pinceladas do assunto aqui e ali, nada mais específico e abrangente. Eu mesma não gostava de literatura no ensino fundamental, achava tudo muito cansativo: datas, períodos e lista de poetas e escritores de cada um deles, características de cada fase...aff! Confesso: cheguei à Faculdade sem muito esperar da Literatura de um modo geral, porém, havia coisas mais interessantes, não só aquilo!
Espero que isso possa ser mudado, se não pela grade curricular, que os próprios professores tenham o entusiasmo por si de estimular seus pequenos e futuros leitores (e escritores, quem sabe?). Muito obrigada novamente! Bjins pra ti!Até!

Luma disse...

É gostoso ver a reação da criança quanto à leitura. As rimas do poema seguem um rítmo que para elas, se compara à brincadeira de balanço, indo de lá pra cá, assim dançam as palavras dentro de suas cabecinhas. Você já leu Clarice Lispector para crianças? Boa semana! Beijus

Quasímodo disse...

Uma "REFLEXÃO" muito apropriada, amiga Jô.

Muitas vezes conversei com a amiga Krika à respeito, e de seu projeto voluntarioso (e fora da grade curricular, como aqui se comentou) de estímulo à leitura.

Acredito mesmo que esse estímulo passa necessariamente à margem da grade escolar oficial.

Pois aceitemos ou não, a escola oficial, na sua estrutura atual, é um instrumento de reprodução e manutenção do "status quo", seja ele qual for, e sejam quais forem seus interesses e ideologia.

E "ler pode tornar o homem perigosamente humano" como referiu a amiga Krika em postagem recente na Torre.

Grande abraço.

disse...

Oi Luma!
A metáfora do balanço e das palavras rimadas na cabecinha das crianças foi muito apropriada (e bela!) em teu comentário, adorei! Também não li nada de Clarice Lispector nessa linha, mas, certamente, vou procurar. Obrigada por contribuir com a indicação, além de agregar-se à lista dos que apreciam poesia. Bjins e até!

Olá Quasímodo!
A participação de quem está inserido no contexto atual das escolas muito esclarece a respeito desse assunto que postei, é ótimo contribuir em tempo, por outro lado, é triste saber que, de fato, poesia é algo desprestigiado em nosso país. Você bem expôs que manter a educação como está é mais interessante (para alguns grupos,claro). Li o post da Krika sobre o assunto e é uma ótima reflexão também acerca da leitura que edifica a humanidade. Bjins e até mais!

tita coelho disse...

Jô,
Poemas infantis são tudo de bom! Comprei para meu filhote o livro de Camões para crianças... Uma obra menina, ele adorou! Bem, o Lucas ( meu filho) lê até Mário Quintana kkkkkkkkkkkk Eu acho um barato!
Olavo Bilac está entre os meus autores preferidos... Poeta sensível, escrevia de verdade e não mandava recado!
Beijos menina bom final de semana para ti :)

disse...

Oi Tita! Vou dizer uma coisa: seu filho, com certeza, é uma criança abençoada ainda mais porque o trabalho dos pais gira em torno da leitura basicamente, não? É maravilhoso! Gostaria que todas as crianças pudessem ter mães, pais e responsáveis a estimular o gosto pela poesia, que não dependesse apenas da escola porque já notei pelos comentários de quem atua o quão defasada ela está nesse quesito.
Parabéns por dar a ele a oportunidade preciosa de dispor de grandes e bons autores, bem ao alcance dos olhinhos e do coração!
Bjins pra ti!